segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Artigo - Sociedade de Consumo: uma abordagem histórica da pré à pós-modernidade

Resumo - O presente trabalho objetiva fazer uma abordagem histórica do comportamento de consumo da pré-modernidade - que compreende a era agrícola - até a pós-modernidade - a sociedade da informação. A partir de uma desconstrução dessas fases de desenvolvimento, passando, inclusive, pela revolução industrial, pretende-se mostrar que o comportamento de consumo da sociedade está bastante relacionado com as condições sociais e econômicas de cada período, consolidando-se num processo bastante complexo.

Leia o artigo na íntegra

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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Os modelos

É natural a busca por referências. É um meio de projetar o que se quer alcançar. Talvez uma maneira de tornar real algo ainda não realizado, que mora nos devaneios, uma forma de facilitar a idealização do que se pretende, embora muitas vezes, nos tornamos modelos sem saber muito bem de quem ou de que. E nos pegamos fazendo ou dizendo coisas que não defendemos e, pior, que abolimos. E quando essa percepção ocorre, por incrível que pareça, pode ser considerada uma evolução, pois há sujeitos que passam a vida inteira sem ter a consciência do que está praticando e, conseqüentemente, do que está deixando para outras gerações.

É importante pensarmos, como diz o filósofo e educador Mario Sérgio Cortella, “no que vamos deixar”. Somos modelo de quê? Estamos sendo observados o tempo todo. E quer queria quer não, somos modelos, principalmente para as crianças, que buscam nos adultos uma referência de como agir, de como lidar com as situações. Veja abaixo o vídeo da Child Friendly, ele trata desse assunto.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O brilho que vira fardo

Em tempos de consumismo, de trocas insanas de objetos, da ânsia por novidades, Chico César fala na letra da música de sua autoria, que aliás leva o mesmo nome do CD - “De uns tempos pra cá” - sobre essas coisas mundanas que vamos juntando e que possuem certo encantamento até o momento de serem compradas, mas que depois acabam virando coisas pra tropeçar, se tornando fardo pra carregar, como bem diz a letra que pode ser conferida abaixo. O videoclipe também está disponível, logo após a letra da música.













De uns tempos pra cá
os móveis, a geladeira
o fogão, a enceradeira
a pia, o rodo, a pá
coisas que eu quis comprar
deu vontade de vender
e ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá
o carro, a casa, o som
tv, vídeo, livros, bom...
o que em tese faz um lar
admito eu quis comprar
começo a me arrepender
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas
servem só pra tropeçar
têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar

De uns tempos pra cá
o pufe, a escrivaninha
sabe a mesa da cozinha?
lençóis, louça e o sofá
não precisa se alterar
pensei em me desfazer
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá
telefone, bicicleta
minhas saídas mais secretas
tô pensando em deixar
dê no que tiver que dar
seu amor me basta ter
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas
servem só pra tropeçar
têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A moda eco das vitrines

O Mundo do Marketing publicou recentemente matéria que tratava da opinião dos consumidores da América Latina sobre o posicionamento “verde” das empresas. O estudo feito pela TNS InterScience revelou, entre outras coisas, que 25% dos entrevistados na pesquisa consideram o conceito verde “cool” e estão propensos a pagar mais caro por marcas que demonstram preocupações ambientais.

Essa postura fica evidente nas vitrines dos shoppings. Cada vez mais cresce o número de grifes que se utilizam da “consciência verde” para persuadir seu público. Até acredito que algumas empresas tenham uma real preocupação com o meio ambiente, mas deve ser minoria. A indústria, de forma geral, se utiliza dessa estratégia simplesmente para vender mais, para parecer politicamente correta. Assim, as ações são pensadas em termos de resultado, de exposição e de associação da marca. Pensar em sustentabilidade, em meio ambiente, em responsabilidade social e ambiental - temas que deveriam ser quesitos obrigatórios em quaisquer atividades hoje - significam valor agregado, ou seja, são usados como diferencial, o que por si só já é um absurdo. E essa atitude é muito natural, como se as empresas e indivíduos, ao adotarem um comportamento desses, estivessem fazendo um favor para o restante da população. Ora, já é tempo de pararmos com oportunismos. Precisamos acordar para o verdadeiro sentido da vida.

Nada contra as empresas se engajarem nesta onda. A dúvida que fica é se há uma preocupação real ou não com a causa. Por exemplo, por que os produtos ditos ecológicos são geralmente mais caros, ou seja, pesam mais no bolso do consumidor? Deveria haver algum mecanismo que os tornassem mais baratos. Talvez sejam mais caros por serem tão apreciados pela marca que carregam e a imagem que proporcionam. Outro ponto é a questão da moda retratada na pesquisa. Há ocasiões em que o indivíduo compra determinado produto eco para ser visto como um cara consciente. Faz parte da criação do “eu ideal para o outro”, uma das dimensões que as teorias do comportamento do consumidor chamam de “autoconceito” (Beatriz Santos Sâmara e Marco Aurélio Morsch). Assim, não importa se o seu comportamento no cotidiano não é nada ecológico. O que vale é “parecer ser”, até porque é bem mais fácil pra quem pode pagar usar aquela embalagem politicamente correta, mesmo que seja em um corpinho nefasto.

Também me pergunto se as pessoas que fornecem matéria-prima para as empresas ditas ecologicamente responsáveis ou que confeccionam seus produtos são tratadas por estas grifes com o mínimo de dignidade humana. Ou será que simplesmente são exploradas, muitas vezes de forma maquiada? Estarão trabalhando em condições inadequadas e até miseráveis para, sem ter ciência, aumentar a riqueza das grandes corporações que comercializam seus produtos para países que muitas delas nunca saberão nem sequer pronunciar os nomes? Será que essa preocupação não existe porque essas pessoas não ficam expostas nas vitrines dessas lojas e, por isso, tanto faz a responsabilidade que a empresa tem com elas? Ao que parece, não há uma grande preocupação, nem das empresas e nem dos consumidores, com a situação dos que confeccionam determinado produto. O importante, então, é a etiqueta 100% reciclada e os grandes investimentos em marketing, pois estes, sim, refletem nas vendas?

Espero que eu esteja enganado, que essa não seja a lógica. Porque, se assim for, qual o sentido desses produtos, além massagear o ego de quem compra e o bolso de quem vende? Que bem ao planeta proporcionam? Ou será que o homem já não faz mais parte dele e, por isso, deve ser ignorado? Como o importante é a embalagem e a cara do produto, talvez as grifes pudessem promover uma mudança no que expõem. Em vez dos produtos, que mostrem os processos de captação de matéria-prima, as etapas de produção, as condições de vida daqueles que produzem, seus empregados, se é que podemos chamá-los assim. É preciso que a moda eco não seja apenas a da vitrine, mas que possa integrar a vida das pessoas. De todas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Saudade consumida

Quando o filósofo Jean Baudrillard diz que vivemos o tempo dos objetos, ele fala da era do descarte, de um tempo, nas palavras do autor, “que vemos os objetos nascerem e morrerem”. E isso é fato, se antes os objetos duravam anos e anos, muitos passavam por gerações, hoje o “apego material” é menor, até porque a durabilidade dos bens também foi sendo reduzida, entre outras coisas, para funcionar como uma das justificativas dessa troca permanente.

E todos esses objetos consumidos de uns tempos pra cá foram caindo no esquecimento, assim que um outro modelo mais moderno entrava na moda. Porém, esse descarte não era puro e simplesmente do objeto em si. Junto a ele estavam muitos momentos vividos pelo indivíduo (bons, ruins, divertidos, frustrantes, enfim, momentos carregados de emoções, de valores, saudades e vontades). Talvez seja na tentativa de resgatar muito do que ficou pra trás é que a moda retrô hoje esteja em alta e o velho como sinônimo de antiquado, de coisa ultrapassada, esteja passando a ser visto e sentido por um outro ângulo, o da história, das experiências vivenciadas, como bem diz Rubem Alves (embora o autor trate de pessoas, não de objetos).

Como eu, você já deve ter recebido aqueles e-mails do tipo “matando a saudade”, que mostram brinquedos, seriados de tevê, doces, refrigerantes e tantas outras coisas que fizeram parte da infância e adolescência dos adultos de hoje. Outro dia recebi um que, entre tantas coisas, tinha um estojo de canetinhas coloridas. Aí me lembrei de quando usava daquelas para pintar meus desenhos. Gostei, pois me fez voltar ao passado.

Por outro lado, o tal e-mail também me fez pensar em outra coisa. Será que nossa história, ou o que nos faz lembrar dos bons momentos já vividos está sempre relacionado a objetos? Porque é somente isso que trazem esses e-mails, lembranças por meio de objetos. É engraçado e ao mesmo tempo triste. Será possível mudar essa realidade? Talvez e-mails que despertem as boas lembranças por meio de outros conteúdos que não sejam signos de consumismo. E os bons momentos que passamos na escola? Aquele café da tarde de domingo na casa da avó, com os primos, primas e tios? Dos bate-papos com a mãe? Das várias noites olhando o céu estrelado com amigos na tentativa sempre frustrada de ver um disco voador ou de lembrar do quanto era gostoso poder colher uma fruta no pé, na chácara do avô, e de chupá-la ali mesmo, na terra, sem a preocupação de sujar o chão? Dos doces da sogra, desde já eternizados? Enfim, de uma porção de momentos que ficaram e ficam, embora muitas vezes esquecidos nos HDs humanos sempre tão carregados dos afazeres do cotidiano.

Não que os objetos não tenham sua importância, mas a impressão que fica é que são eles os protagonistas. Tudo se resume no comprar, no ter. Estamos sempre intermediados por eles, os objetos. Até quando será assim? Precisamos tentar mudar um pouco isso, fazer com que as novas gerações tenham consciência de que o mundo não se resume num amontoado de chips e de especuladores financeiros. É preciso o resgate dos reais valores, da humanização das relações, de percebemos, como diz a jornalista Rita Trevisan, de que o mais importante são as pessoas.

crédito foto: revelando.blogspot.com

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Voando alto, e não só!

O segundo Fórum Internacional Criança e Consumo, realizado
pelo Instituto Alana, entre 23 e 25 de setembro, em São Paulo, foi fundamental para o avanço das discussões em torno do consumismo que já faz parte da vida das crianças.

As palestras e debates foram além da idéia simplista de que a propaganda é a grande vilã que insere os pequenos desde muito cedo na cultura consumista. O tema foi tratado de diversos ângulos e sob uma abordagem multidisciplinar, como de fato deve ser feito quando se quer realmente trabalhar para transformar o comportamento da sociedade contemporânea.

É claro que há muita publicidade abusiva e que ela está relacionada com a moda do descarte que temos hoje, “da ânsia pelo novo”, como diz o filósofo Gilles Lipovetsky. A publicidade é a fratura exposta dentre os fatores que compõem a problemática do consumismo, é a que põe a cara a tapa, poderíamos dizer. Ela precisa ser tratada, pois da forma como se apresenta hoje não contribui para a formação de indivíduos mais humanistas, críticos e realizados, ao contrário, faz com que as pessoas não caminhem para encontrar a tão sonhada felicidade, mas que vivam numa eterna busca por ela, na qual o prazer não está nem mais no desfrute dos objetos, mas no simples gozo do ato da compra.

E o Fórum levou em conta esses fatores. A questão levantada pelo prof. Mario Sergio Cortella de “que filhos deixaremos para o mundo?” pode ser a questão mais importante. Ficou claro que devemos trabalhar a educação tanto das crianças como a dos pais, dos professores, empresários e profissionais de comunicação. É preciso que ações sejam postas em prática para que se possa transmitir valores outros para a sociedade, que também não tem culpa, de certo modo, de suas atitudes. Atualmente, dentro do sistema e dos valores vigentes, para ser bem sucedido, para ser bacana e fazer parte da turma, é preciso mostrar seus troféus. Como bem lembrou o psicólogo Yves de La Taille, há uma inversão de valores. A propaganda daquele lindo carro de luxo que diz que “quem tem fez por merecer”, deixa bem claro isso. O que seria de fato esse merecer?

É preciso também que as atitudes não estejam apenas no campo das punições, das ações judiciais. Elas têm sua importância e necessidade, mas é necessário que as pessoas sejam conscientizadas, que o poder público e as organizações não governamentais possam ter ações que mostrem que uma outra realidade é possível de ser construída.

Na mesma semana em que se discutia no Fórum alternativas para o consumismo do público infantil, o suplemento “sua empresa”, de 24 de setembro, do Jornal Estado de São Paulo, incentivava empresários a voltar seus negócios – produtos e serviços – às crianças, pois elas representam um mercado promissor. A capa estampava o título “Cofrinho Abonado”, seguido da seguinte chamada: “O mercado infantil movimenta R$ 50 bi e cresce 14% ao ano. É uma oportunidade para quem quer investir”.

Fica claro, a partir de iniciativas como essa, que o caminho a ser percorrido não é dos mais fáceis, afinal, há interesses e lobbys fortíssimos que contam com a alienação das pessoas e a falta de discernimento de crianças para estimular um consumo cada vez mais desenfreado.

Porém, o simples fato de participar do 2ª Fórum Internacional Criança e Consumo e perceber o interesse das pessoas em debater o tema, com auditório completamente lotado, já dá uma certa “sensação de tranqüilidade”. Como disse o professor José Eduardo Romão, é a agradável sensação de saber que não estamos sós.

Ainda refletindo sobre o Fórum, me lembrei do filme “Fernão Capelo Gaivota” e da célebre “Caverna de Platão”. O alívio que sinto é o de perceber que não sou o único a desejar voar mais alto para alcançar outros horizontes, de um mundo real que pode ser muito melhor do que o cenário que temos hoje.

Este texto também está publicado no site da Alana. Acesse

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

E-paper: será o início do fim do papel?

Outro dia escrevi aqui que a Apple precisava ficar atenta na dieta do Macbook Air. Bom, já está na hora de Steve Jobs pensar numa lipo para o computador portátil - ainda o mais fino do mercado - pois está ficando rechonchudo perto dos aparatos tecnológicos que vem surgindo por aí.

Desta vez a novidade é um leitor de conteúdos feito de plástico, pela empresa Plastic Logic. O produto é bem fino e resistente, bem mais que o tradicional LCD que equipa a maioria dos notes, como mostra filme de demonstração, que vale a pena ser visto.
A tecnologia desse e-paper permite fazer anotações a punho ou por meio de um teclado, para quem já perdeu a prática de escrever à mão. A bateria é medida em dias, em vez de horas, ou seja, é superdurável. Fica para a Plastic Logic a missão de pensar em uma versão colorida (essa é monocromática).

Será o início do fim do papel?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Wall-E: a sociedade pós-consumo

Quem ainda não assistiu ao filme Wall-E vale a pena pagar pra ver. A animação da Disney com a Pixar apesar de estar na categoria infantil, é história pra gente grande refletir.

De forma singela e bem simpática, Wall-E faz uma crítica à sociedade consumista contemporânea, que vive a era do descarte, da ânsia pelo novo. No filme, os humanos foram extintos da Terra após o apocalipse e passam a viver em uma grande nave, longe do planeta Terra, onde tudo é automatizado. O robô que leva o nome do filme tem o papel de limpar todo o lixo deixado pelos humanos.

Na nova casa, os humanos não se exercitam pra nada. São obesos e estão sempre sentados em suas poltronas, se “divertindo” com a programação passada nas grandes telas. E não há interação entre os moradores da nave. Um não conversa com o outro. Todo o serviço é executado por robôs.

Em uma das cenas, um dos moradores da nave cai da poltrona e não consegue se levantar sozinho, lembrando a figura de um grande besouro com as pernas viradas pra cima. Aliás, nem andar as pessoas sabem, pois só aprenderam a ficar sentadas apertando os botões dos controles remotos.
Só espero que tal ficção não se torne realidade um dia!
Assista ao trailer

Mudança de hábito: o consumo voltado ao público infantil

A Revista Carta Capital traz na seção Diálogos texto de Thomaz Wood Jr. que fala do consumo voltado ao público infantil, das propagandas abusivas e do grande tempo em que os pequenos ficam à frente da tevê. Intitulado Cavernistas, Wood também faz uma crítica aos publicitários, que segundo o autor, parecem viver em um mundo fora da realidade, “na célebre Caverna de Platão”, afirma.

De fato, a tevê e outros aparatos tecnológicos, como a internet e o videogame, têm sido os grandes companheiros e “educadores” das crianças da sociedade contemporânea. A publicidade, sem dúvida, já descobriu isso e também que os pequenos são presa fácil, principalmente aqueles em idade que ainda não conseguem distinguir uma propaganda de um programa de tevê (até 4 anos). Tenho observado que a televisão brasileira reforça o consumismo também no público infantil. Porém, não acredito que uma simples proibição, como a que se quer colocar por meio da aprovação do substituto do projeto de lei 5.921/2001 , venha ajudar a formar cidadãos mais conscientes, inclusive do ponto de vista do consumo. É claro que tudo tem limites e que há muito conteúdo eletrônico abusivo, muitos publicitários na caverna, como bem disse Wood, mas também, que há muitos pais, mães, empresários e professores vivendo nesse mundo paralelo, alimentado por um sistema viciado no consumismo.

A realidade é que essas crianças, mais cedo ou mais tarde, serão inseridas na cultura de consumo e, se não tiverem sido educadas para um consumo consciente, para um “ser” mais do que “ter”, serão os adultos consumistas, angustiados e estressados de hoje, que usam o consumo como escape, numa eterna busca pela felicidade.

É preciso que haja limites, principalmente quando o assunto envolve crianças. Mas acredito que o fundamental seja a mudança de comportamento da sociedade, que as famílias consigam dar mais atenção a seus filhos e que terceirizem menos a educação, o amor e a atenção aos pequenos e que tanto o governo quanto as ONGs, intensifiquem ações que visem despertar essa consciência crítica para que se consiga mostrar que uma outra realidade é possível de ser construída. Isso de fato é mais complicado, mas precisamos parar de querer remediar, de buscar pseudo-soluções simplistas para problemas complexos, como esse que envolve a cultura do consumismo de uma sociedade que é estimulada, e não só pela publicidade, a viver "intensamente o prazer" do descarte.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Balada Sustentável

Em épocas de cultura eco, o CLub4Climate, em Londres, criou uma pista de dança com tecnologia que usa cristais de quartzo e cerâmicas para transformar o movimento dos freqüentadores em eletricidade. A pista gera 60% da energia necessária para movimentar a casa. Os 40% restantes são gerados por meio de turbinas eólicas. E quando há excesso de energia ela é utilizada em casas próximas ao clube.

Quem sabe a moda pega por aqui e acaba transformando os pisos dos tão freqüentados shoppings em pisos sustentáveis? E as passarelas de moda, então? Os São Paulo Fashion Week da vida? Também poderiam adotar a tecnologia.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A moda das leis secas

No Brasil é costume se falar que tal lei pegou ou não pegou. Pois a moda agora são as leis secas. A das bebidas alcoólicas já está em vigor, e parece que pegou. Nada contra. Estar na direção requer muita responsabilidade. Porém, a mais nova das secas é a tal lei seca do cigarro, como já vem sendo chamada pelos meios de comunicação. Ainda não foi aprovada, é um projeto de lei do governador de São Paulo.

A proposta proíbe o cigarro em todos os estabelecimentos, inclusive bares, restaurantes e casas noturnas. O projeto também prevê o fim dos fumódromos em áreas públicas ou particulares, como em empresas. Se for aprovada na Assembléia Legislativa, o estabelecimento que descumprir a lei poderá pagar multa de até R$ 3,2 milhões. Já o fumante, se insistir em permanecer no local com o cigarro aceso, poderá ser retirado do estabelecimento com auxílio da força policial.

Nessa onda da restrição, sempre é o cidadão, que trabalha muito e paga impostos pacas, quem tem de se privar de seus gostos e vícios. Não quero discutir se o cigarro, no caso, faz mais ou menos mal que tantas outras coisas, tanto do ponto de vista físico como do psicológico. Mas o que mais me deixa indignado é que o indivíduo está ficando cada vez mais encurralado.

Aqui no Brasil, os deveres são bem maiores que os direitos (e que direitos, se é preciso pagar por tudo para se ter acesso?). Não acredito que a restrição seja uma boa solução para resolver também os problemas com cigarro. Até porque, pelo que propõe o projeto, os magnatas poderão continuar desfrutando de seus belos charutos cubanos nos Clubes de Charuto, que ficaram fora da proposta. E a comparação usada, para dizer que a restrição funciona, é com países como Canadá, Inglaterra e Austrália, como disse para um jornal uma conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas. A única diferença entre esses países e o nosso é que, lá fora, os cidadãos têm qualidade de vida de verdade: educação, saúde, moradia e condições de trabalho bem melhores do que a que temos por aqui.

Com tantos malabarismos que o cidadão brasileiro tem que fazer para continuar sobrevivendo, agora terá de se privar também de seu trago. Até a polícia poderá ser utilizada para a fiscalização! O que só pode ser uma boa piada. Serão os caça-fumaça? Ora, não quero fazer apologia ao fumo, até porque acredito que fumantes e não fumantes têm direitos iguais. Mas talvez, se o projeto desse uma alternativa para os estabelecimentos criarem áreas isoladas e com sistema de exaustão adequado, onde se pudesse fumar, ele fosse mais democrático.

Também acredito que os políticos no poder poderiam criar algumas outras leis secas, que seriam certamente benéficas à população. A lei seca da corrupção, da falta de ética, da alta carga tributária... Essas sim fariam bem não só para o pulmão, mas para todo corpo e mente do cidadão, pois poderiam proporcionar mais qualidade de vida para todas as pessoas, fumantes ou não.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A era do acesso: compartilhando os objetos para um consumo mais consciente

Em tempos de hipermodernidade, como diz Gilles Lipovetsky em “Tempos Hipermodernos” (2004), compartilhar talvez seja uma dádiva. Os costumes da contemporaneidade acabam deixando os indivíduos cada vez mais egoístas, mais individuais, mais competitivos, porém não menos frágeis.

A sede de posse é grande. Quanto mais acúmulo de bens, mais bem visto é o homem, que trabalha, estuda, corre pra cá e pra lá “precisando” ganhar cada vez mais para suprir suas necessidades, sejam elas físicas e ou psicológicas. É a casa de campo, de praia, moto, lancha, carros ... É a comodidade, o lazer (com ou sem ócio, esse último ainda mais provável), o desfrutar das delícias desse mundo de carne e osso. Ótimo, quase perfeito, se desse tempo para usufruir de tudo isso. Bom, pelo menos a sensação de ter (do isso tudo é meu) ainda pode ser uma grande satisfação. Mas e o custo-benefício, se deixarmos de lado os aspectos psicológicos do ser? Com as aquisições, as contas vão aumentando e, com elas, o seu compromisso de trabalhar mais para poder quitá-las. (Adeus tão sonhado ócio). E o custo de todos esses bens parados, sem uso? Será inteligente do ponto de vista financeiro, ambiental e social?

Muito se diz do tal desapego que devemos ter dos bens materiais. Coisa difícil, né (pelo menos pra mim). A sociedade contemporânea até quem tem mostrado seu lado inteligente e de certa forma socializador, mesmo que seja pensando mais em economia financeira do que no compartilhar de fato. Em seu livro “A Era do Acesso” (2000), Jeremy Rifkin, fala de uma sociedade que não precisa ser dona de nada, mas que pode ter acesso a tudo. “O acesso just-in-time de bens e serviços é a tendência do futuro. Cada vez mais pagaremos para utilizar coisas em vez de sermos os proprietários”, afirma o autor. Nesta lógica, não deixaríamos de utilizar a casa de campo, a de praia... Digamos que poderíamos chamar isso de um socialismo capitalista, no qual muitos objetos podem ter mais de um dono, ao mesmo tempo em que ninguém é dono de nada. Paga-se pelo uso. Assim, divide-se bônus e ônus.

Já tem muita gente praticando o compartilhamento dos objetos. Nos países desenvolvidos já acontece em maior escala. No Brasil também existe e a tendência é crescer. São escritórios com estrutura enxuta em que diversas pessoas jurídicas utilizam a mesma sala de reunião, equipamentos, secretária etc. Na Califórnia - EUA - há carros compartilhados. O indivíduo paga uma taxa por mês. Os carros ficam disponibilizados em vários lugares. A pessoa pode pegar em um ponto e deixá-lo em outro local.

E a era do acesso também está nos céus. A novidade, pelo menos pra mim, foi a de ver no jornal Diário do Grande ABC, de 18 de agosto, matéria falando sobre helicópteros compartilhados. É claro que mesmo dividindo em grupo (cerca de 10 pessoas) custa muito para a maioria dos mortais, mas é a idéia em si que é boa e precisa ser ampliada e divulgada. Além de ter um preço altíssimo, os mais baratos por volta de R$ 1 milhão, ter uma máquina dessas parada, mesmo pra quem pode, significa prejuízo. Então, porque não compartilhar?

Segundo a reportagem, o Brasil tem 200 pessoas que utilizam esse sistema, que já existe há sete anos. Paga-se 10% do valor da aeronave como cota e R$ 11 mil mensais para manutenção do aparelho e custos de vôo, como combustível, piloto, entre outros. Espero que essa filosofia, a da era do acesso, continue a se multiplicar. É bom para os indivíduos, é bom para o planeta também, mas claro, ainda longe dos ideais de ambientalistas e socialistas. Mas no tempo em que vivemos, essas notícias são animadoras, pois mostram que há alternativas à forma atual de nos relacionarmos com os objetos, criando, pelo menos, uma cultura de consumo mais consciente.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Multitarefas: a vida through the screen

Matéria da Veja de 6 de agosto trata das chamadas crianças multitarefas. Falar no celular, escutar música, bater papo no MSN, jogar videogame e ainda dar uma espiada na programação da TV são algumas das coisas que essa nova geração faz de uma só vez.

Bom ou ruim, não sei dizer. Mas uma coisa é certa: a tecnologia não é a grande causa desse comportamento. É fato que ela está inserida no universo do público infantil. Para as crianças da sociedade moderna, o mundo é through the screen. A vida dos multitarefa é intermediada por telas. Até livro já se lê em posição vertical, por causa do hábito de olhar para o monitor do computador.

Mas e daí? O que isso significa, além da adpatação aos meios, coisa que não é exclusividade dessa geração? A sociedade muda constantemente, e ainda bem que isso acontece. São avanços, retrocessos, mas que significam novas experiências. Os especialistas ouvidos por Veja disseram que será necessário uma ou duas gerações para saber se o impacto desse fenômeno é positivo ou não. Um deles, professor de conceituado colégio de São Paulo, já percebeu uma coisa: “As crianças processam rapidamente um número maior de informações, mas num nível superficial. Ir fundo no assunto é difícil pra elas”.

Hoje, o que vale mais é a quantidade. Vivemos no que a revista Wired chama de snack culture (cultura aos pedaços). Somos ansiosos pelo novo. Queremos um pouquinho de tudo, somos incentivados a isso. E é gostoso, mas não menos perigoso, tudo depende do ponto de vista. E viva o mundo da baixa resolução, de vídeos por celular e do second life! A quantidade de informação não pára de aumentar. Já a qualidade, é mais discutível... ou não.

Voltando à Revista, o que mais causou espanto na matéria foram os relatos das mães que participaram da reportagem. Elas ficaram assustadas com o comportamento dos filhos, de darem atenção para duas, três, quatro, até cinco coisas diferentes ao mesmo tempo. Isso mostrou que essas mães dão pouca atenção aos filhos, não têm muita convivência com eles, pois mal sabiam o que estavam fazendo em casa.

Esse talvez seja um problema, e, de certa forma, também não é culpa delas, pois estão inseridas na lógica do mercado. Para manter os costumes da vida moderna é preciso de dinheiro, o que, na maioria das vezes, significa mais trabalho. Assim, os pais terceirizaram a atenção - o convívio que deveriam ter com os filhos - para os aparatos tecnológicos, as novas babás eletrônicas da modernidade. Embora também, dependendo da relação familiar, talvez a criança saia ganhando em não ter os pais muito por perto. E quem gosta disso é o mercado publicitário, que enxerga a criança como presa fácil, "verdadeira trainee do consumo", nas palavras do professor Daniel Galindo.