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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Se relacionando com o VELHO

Outro dia fiz um post - que está um pouco abaixo deste - falando sobre o relacionamento com o NOVO. O texto diz que seria muito positivo se o indivíduo aplicasse a mesma ânsia que tem por novos bens de consumo à vontade de se renovar, de promover uma reforma íntima, fazendo surgir, assim, um novo homem. E foi pensando sobre o Novo que resolvi falar sobre o VELHO.

Em tempos de modernidade, VELHO é sinônimo de sarcófago, de coisa fora da moda, que não serve mais, sem utilidade, um grande estorvo pra humanidade. Até porque é o VELHO que contribui com as toneladas de lixo que juntamos e/ou descartamos, ainda que o velho que vai para o lixo não seja tão velho assim (mas para a vida útil dos produtos hoje em dia, ele é sempre mais do que VELHO). Do ponto de vista dos objetos é isso: o velho é o que já está fora de moda, cujo modelo foi ultrapassado por um lançamento, por um NOVO modelo. Por isso, o que é velho acaba virando lixo, peça descartável. Se utilizássemos a prática dos 3 Rs (reduzir, reutilizar e reciclar) já conseguiríamos diminuir o surgimento de novos VELHOS e, desta forma, a quantidade de lixo. A economia para o bolso também seria maior. Aliás, Jack Johnson tem uma música chamada The 3 R´s (letra original - letra traduzida) - em seu disco de nome Sing-a-Longs and Lullabies For The Film Curious George - que fala sobre essa prática.

Bom, se mudarmos o foco para as pessoas, o VELHO também é visto com certo preconceito, como estorvo, sinônimo de um desatualizado. Porém, os avanços da medicina começaram a proporcionar à sociedade uma expectativa de vida mais longa. E isso fez com que rapidamente o mercado reagisse, criando produtos específicos para essas pessoas, que passaram a ser vistas como consumidores ativos, que utilizam o dinheiro para remédios, vitaminas, viagens, diversões, enfim, o VELHO passou a ser mais respeitado pois, na lógica capitalista, ele está cada vez mais apto e decidido a consumir. Assim, quanto mais tempo o indivíduo permanecer vivo, mais ele poderá comprar.

E a palavra VELHO já soa tão pejorativa em nossa cultura que o politicamente correto sugere conceituar os mais VELHOS como Terceira Idade ou, no mínimo, idosos. Mas, como diz Rubem Alves, já pensou se em vez de O Velho e o Mar, Hemingway colocasse em seu livro o título de O Idoso e o Mar? Ou, então, pra piorar a Pessoa da Terceira Idade e o Mar? Não dá, não caberia, pois soa falso, perde o conteúdo e a poesia.

É por isso que a palavra VELHO tem seu particular. É bonita essa coisa do VELHO, pois ele representa experiências, marcas, histórias, alegrias e tristezas. O VELHO viu nascer e morrer, tem o privilégio da maturidade. VELHO não é estar gasto, ao contrário, quanto mais VELHO, mais novo se pode ser. Mario Sergio Cortella, filósofo e professor da PUC-SP, diz em um de seus livros que, ao contrário do sapato que já nasce pronto e vai se desgastando, o homem não nasce pronto. Com o passar do tempo, a cada nova experiência, ele vai se fazendo e refazendo, deixando florescer seu mais novo modelo em cada momento do presente.
Assim, enquanto o VELHO pode estar repleto do NOVO, o NOVO pode ser o velho de sempre, apenas disfarçado de um pseudo-novo.

Que viva o VELHO!!!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Se relacionando com o NOVO

Na sociedade consumista, a palavra NOVO tem um grande poder. Tudo o que ela acompanha passa a ser objeto de desejo, pois o NOVO representa - mesmo que apenas simbolicamente - algo diferente, coisa que talvez não se tenha experimentado ainda. Mesmo o que é antigo pode ser encarado como NOVO, basta que um pequeno detalhe seja modificado, para acompanhar a moda, ou como se diz, a tendência, pois, muitas vezes, o NOVO nada mais é que sinônimo de mais do mesmo. Mas não importa: possuir o NOVO, em tempos modernos, significa estar antenado, ser um homem de sucesso e não estar excluído da sociedade, mesmo que esta seja uma pseudo-inclusão.

O NOVO é estratégia para a comercialização dos produtos que, cada vez mais, têm seu ciclo de vida encurtado, pois é preciso renovar continuadamente para que se possa acompanhar as mudanças do mercado. Uma das grandes paixões dos brasileiros, o automóvel, é um exemplo que serve para ilustrar o uso exagerado do conceito de NOVO. Nem havíamos chegado ao meio de 2008 e já era possível encontrar na mídia a publicidade dos novos modelos 2009 - mesmo que esse NOVO se concretizasse, de fato, apenas num friso diferente do pára-choques.

E quanto mais modelos novos surgem, mais rápido passa a ser o descarte do que se tem, pois a partir do momento em que se toma ciência do lançamento de um novo modelo de determinado produto que está no mercado, a impressão que se tem é que seu antecessor passa a não mais cumprir seu papel. E pode acontecer mesmo de não cumprir, mais do ponto de vista psicológico do que funcional.

O problema é que não se nota a mesma ânsia empregada no relacionamento com os objetos, essa vontade de se relacionar com o NOVO, quando em relação ao próprio indivíduo, seus pensamentos e atitudes. Neste quesito, gostamos mesmo é do velho ser que habita em nós. E não são raras as vezes em que se ouve: “Sou assim mesmo, não vou mudar”, postura, no mínimo, lamentável. Por que não transportar a vontade de gozar do NOVO modelo de produto para a possibilidade de desfrutar de um novo modelo de indivíduo? E neste caso, o NOVO precisa ir além da embalagem, do puxa aqui, aspira ali, ou dos tão desejosos MLs que se pode acrescentar – para o “bem” da aparência. O upgrade pessoal também precisa ultrapassar as matérias do intelecto - quando chegam até elas - com pós disso e daquilo, línguas, cursos de extensão, aperfeiçoamento e tal - pois o NOVO, aquele que se refere à reinvenção do próprio indivíduo, é carente de novas atitudes, formas outras de se relacionar consigo e, consequentemente, com os outros.

Então, neste final de ano - época que talvez seja mais propícia para as reflexões -, nada de trocar apenas aquele “friso lateral”. O fundamental, nesse processo de transformação, começa com a vontade de conquistar um NOVO modelo de pessoa, mais fraterno, amigo, capaz de se amar e de amar as outras pessoas com quem convive, respeitando-as e respeitando-se e, acima de tudo, deixando a paz fazer parte de suas ações.

E sobre o NOVO no consumo, o que fazer, a saída seria não comprar mais nada? Não, essa não-necessidade talvez seja utopia, pelo menos no sistema vigente. Mas é possível adotar práticas de consumo mais conscientes: aproveitar alimentos, consertar roupas e sapatos, comprar menos brinquedos para filhos, netos e afilhados e, quando o fizer, propor, por, exemplo, que a criança doe um para ganhar outro. No supermercado, vale se perguntar se aquilo que está vendo e que despertou um desejo momentâneo é realmente necessário naquele momento. Enfim, é possível renovar a forma de enxergar o mundo e, mais do que isso, sua atuação nele.

Adotar uma NOVA postura, uma NOVA forma de se relacionar é mais difícil do que consumir parcelando no cartão. É preciso atitude, força de vontade, disciplina para poder deixar aflorar um sujeito que saiba respeitar e amar mais a si, os outros e os lugares por onde passar.

E então, disposto a conquistar esse NOVO sujeito?