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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Chupeta*, choro, comunicação e consumo

Até há um tempo atrás pensava que as crianças gostavam de chupetas pois via grande parte delas com uma na boca. Também sempre observei que crianças choronas ficavam quietas quando um adulto colocava uma chupeta em suas bocas. Assim, pra mim, o único mal da chupeta era a história que sempre ouvi de que ela entortava os dentes de quem as usasse.

Pois bem. Foi há pouco tempo também que descobri que a chupeta representa muito mais do que um simples instrumento usado pelos pais para fazer o bebê parar de chorar e que este choro é a forma que os bebês têm de se comunicar, de expressar seus sentimentos, desejos e dores. E foi por isso que passei a acreditar que as crianças não devem gostar tanto de chupeta como às vezes parece.

E se o choro é a forma da criança - que ainda não sabe falar - se expressar, e a chupeta é um meio de parar com o choro, a chupeta, portanto, exerce a função de um cala-boca. Para Tracy Hogg, no livro Os Segredos de uma Encantadora de Bebês, esse ato seria o mesmo que colocar uma bola de meia na boca de um adulto. A recomendação da autora é para observar o que aconteceu antes e o que está ocorrendo naquele momento do choro: como foi a alimentação da criança, se há algum barulho diferente no ambiente, além de prestar atenção nos movimentos dela para poder compreender o que a criança está querendo dizer.

É claro que procurar entender o que a criança está tentando comunicar por meio do choro dá muito mais trabalho, pois exige paciência, tempo, dedicação e sensibilidade para aprender a ouvir. Isso tudo somado às preocupações e afazeres da vida pós-moderna, torna mais fácil e prática a atitude automática da chupeta que, apesar de não atuar sobre a causa, é um tranqüilizante momentâneo para os adultos, que querem o silêncio imediato.

Aplicando a idéia à sociedade de consumo, percebe-se que há muita relação de empresa com cliente baseada no “mecanismo da chupeta”. Em vez de procurar entender os desejos e necessidades de seus consumidores - o que requer disposição para ouvir, para construir um relacionamento de verdade - há empresas que, talvez por ser mais fácil, embora menos inteligente, optem pelo cala-boca, o que significa, quase sempre, perder o cliente.

Tanto no caso das crianças quanto das empresas, a relação baseada na chupeta causa perdas. Para empresas, o prejuízo é sentido mais no capital. Já no caso das crianças, a perda talvez seja ainda maior, pois os pais podem estar deixando de conhecer melhor seu filho, de iniciar a construção de um relacionamento.

Poderá ser a chupeta responsável por tudo isso?

*Chupeta= Mamilo de borracha para crianças (dic. Aurélio)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Voando alto, e não só!

O segundo Fórum Internacional Criança e Consumo, realizado
pelo Instituto Alana, entre 23 e 25 de setembro, em São Paulo, foi fundamental para o avanço das discussões em torno do consumismo que já faz parte da vida das crianças.

As palestras e debates foram além da idéia simplista de que a propaganda é a grande vilã que insere os pequenos desde muito cedo na cultura consumista. O tema foi tratado de diversos ângulos e sob uma abordagem multidisciplinar, como de fato deve ser feito quando se quer realmente trabalhar para transformar o comportamento da sociedade contemporânea.

É claro que há muita publicidade abusiva e que ela está relacionada com a moda do descarte que temos hoje, “da ânsia pelo novo”, como diz o filósofo Gilles Lipovetsky. A publicidade é a fratura exposta dentre os fatores que compõem a problemática do consumismo, é a que põe a cara a tapa, poderíamos dizer. Ela precisa ser tratada, pois da forma como se apresenta hoje não contribui para a formação de indivíduos mais humanistas, críticos e realizados, ao contrário, faz com que as pessoas não caminhem para encontrar a tão sonhada felicidade, mas que vivam numa eterna busca por ela, na qual o prazer não está nem mais no desfrute dos objetos, mas no simples gozo do ato da compra.

E o Fórum levou em conta esses fatores. A questão levantada pelo prof. Mario Sergio Cortella de “que filhos deixaremos para o mundo?” pode ser a questão mais importante. Ficou claro que devemos trabalhar a educação tanto das crianças como a dos pais, dos professores, empresários e profissionais de comunicação. É preciso que ações sejam postas em prática para que se possa transmitir valores outros para a sociedade, que também não tem culpa, de certo modo, de suas atitudes. Atualmente, dentro do sistema e dos valores vigentes, para ser bem sucedido, para ser bacana e fazer parte da turma, é preciso mostrar seus troféus. Como bem lembrou o psicólogo Yves de La Taille, há uma inversão de valores. A propaganda daquele lindo carro de luxo que diz que “quem tem fez por merecer”, deixa bem claro isso. O que seria de fato esse merecer?

É preciso também que as atitudes não estejam apenas no campo das punições, das ações judiciais. Elas têm sua importância e necessidade, mas é necessário que as pessoas sejam conscientizadas, que o poder público e as organizações não governamentais possam ter ações que mostrem que uma outra realidade é possível de ser construída.

Na mesma semana em que se discutia no Fórum alternativas para o consumismo do público infantil, o suplemento “sua empresa”, de 24 de setembro, do Jornal Estado de São Paulo, incentivava empresários a voltar seus negócios – produtos e serviços – às crianças, pois elas representam um mercado promissor. A capa estampava o título “Cofrinho Abonado”, seguido da seguinte chamada: “O mercado infantil movimenta R$ 50 bi e cresce 14% ao ano. É uma oportunidade para quem quer investir”.

Fica claro, a partir de iniciativas como essa, que o caminho a ser percorrido não é dos mais fáceis, afinal, há interesses e lobbys fortíssimos que contam com a alienação das pessoas e a falta de discernimento de crianças para estimular um consumo cada vez mais desenfreado.

Porém, o simples fato de participar do 2ª Fórum Internacional Criança e Consumo e perceber o interesse das pessoas em debater o tema, com auditório completamente lotado, já dá uma certa “sensação de tranqüilidade”. Como disse o professor José Eduardo Romão, é a agradável sensação de saber que não estamos sós.

Ainda refletindo sobre o Fórum, me lembrei do filme “Fernão Capelo Gaivota” e da célebre “Caverna de Platão”. O alívio que sinto é o de perceber que não sou o único a desejar voar mais alto para alcançar outros horizontes, de um mundo real que pode ser muito melhor do que o cenário que temos hoje.

Este texto também está publicado no site da Alana. Acesse

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Mudança de hábito: o consumo voltado ao público infantil

A Revista Carta Capital traz na seção Diálogos texto de Thomaz Wood Jr. que fala do consumo voltado ao público infantil, das propagandas abusivas e do grande tempo em que os pequenos ficam à frente da tevê. Intitulado Cavernistas, Wood também faz uma crítica aos publicitários, que segundo o autor, parecem viver em um mundo fora da realidade, “na célebre Caverna de Platão”, afirma.

De fato, a tevê e outros aparatos tecnológicos, como a internet e o videogame, têm sido os grandes companheiros e “educadores” das crianças da sociedade contemporânea. A publicidade, sem dúvida, já descobriu isso e também que os pequenos são presa fácil, principalmente aqueles em idade que ainda não conseguem distinguir uma propaganda de um programa de tevê (até 4 anos). Tenho observado que a televisão brasileira reforça o consumismo também no público infantil. Porém, não acredito que uma simples proibição, como a que se quer colocar por meio da aprovação do substituto do projeto de lei 5.921/2001 , venha ajudar a formar cidadãos mais conscientes, inclusive do ponto de vista do consumo. É claro que tudo tem limites e que há muito conteúdo eletrônico abusivo, muitos publicitários na caverna, como bem disse Wood, mas também, que há muitos pais, mães, empresários e professores vivendo nesse mundo paralelo, alimentado por um sistema viciado no consumismo.

A realidade é que essas crianças, mais cedo ou mais tarde, serão inseridas na cultura de consumo e, se não tiverem sido educadas para um consumo consciente, para um “ser” mais do que “ter”, serão os adultos consumistas, angustiados e estressados de hoje, que usam o consumo como escape, numa eterna busca pela felicidade.

É preciso que haja limites, principalmente quando o assunto envolve crianças. Mas acredito que o fundamental seja a mudança de comportamento da sociedade, que as famílias consigam dar mais atenção a seus filhos e que terceirizem menos a educação, o amor e a atenção aos pequenos e que tanto o governo quanto as ONGs, intensifiquem ações que visem despertar essa consciência crítica para que se consiga mostrar que uma outra realidade é possível de ser construída. Isso de fato é mais complicado, mas precisamos parar de querer remediar, de buscar pseudo-soluções simplistas para problemas complexos, como esse que envolve a cultura do consumismo de uma sociedade que é estimulada, e não só pela publicidade, a viver "intensamente o prazer" do descarte.

terça-feira, 29 de julho de 2008

A democracia do standing não esconde a falta de educação

Segundo editorial do jornal Diário do Grande ABC, de 29 de julho de 2008, 20 milhões de brasileiros migraram das classes E e D para a C. Eles são responsáveis por 75% de todo o consumo do país. “Em bairros periféricos e até mesmo em favelas da região é possível encontrar residências estruturadas, recheadas de bens de consumo e serviços da vida moderna, como computador, internet e TV por assinatura”, afirma o texto.

De fato, a população começa a ter acesso a bens de consumo, antes privilégio das elites. E isso não acontece somente nas classes baixas. A classe média também escalou a Pirâmide de Maslow e, agraciada com as linhas de crédito, pôde financiar aquele carrão do sonho em até 80 vezes, ainda que, no final do financiamento, tenha chegado à conclusão de que pagou o equivalente a dois ou até três carros. Na verdade, muita gente pouco se importa com as taxas de juros no momento da compra. O desejo de posse do tão sonhado objeto é maior do que a preocupação financeira.

Não vejo nada de mal em adquirir aquilo que se quer, até porque o brasileiro é um povo que trabalha muito, paga imposto pacas e tem praticamente quase nenhum retorno do poder público. O problema é que essa ascensão de classes é ilusória. É o parecer, mais do que o ser. É a democracia do standing, segundo o filósofo Jean Baudrillard. Para ele, “o princípio democrático acha-se então transferido de uma igualdade real, das capacidades, responsabilidades e possibilidades sociais, da felicidade (no sentido pleno da palavra) para a igualdade diante do objeto e outros signos evidentes do êxito social e da felicidade. É a democracia do standing, a democracia da TV, do automóvel e da instalação estereofônica, democracia aparentemente concreta, mas também inteiramente formal, correspondendo para lá das contradições e desigualdades sociais à democracia formal inscrita na constituição”. Isso significa que o mundo dos objetos, das facilidades, encobre um mundo real de responsabilidades e direitos.

Hoje de manhã, enquanto estava de carro parado num semáforo, aguardando o sinal verde, fui testemunha de uma cena que me fez refletir sobre tudo isso. Dois rapazes muito bem vestidos, com pinta de executivos, em um carro bacana, pegaram um panfleto - daqueles que são distribuídos em tudo quanto é semáforo - e, na maior cara-de-pau, jogaram o papel na rua, pela janela. Na hora, fiquei indignado com a atitude dos dois e me perguntei: como pode? Além do desrespeito com a pessoa que estava entregando o material - pois ninguém é obrigado a aceitar - jogar o papel em via pública é, no mínimo, falta de educação. Naquele momento, a máscara por trás da qual estavam escondidos - carro moderno, gel no cabelo e roupa fina – caiu imediatamente.

Cheguei à conclusão de que a democracia dos objetos – embora festejada por muitos - não dá conta de inserir determinadas pessoas num patamar superior quando o que está em jogo são coisas simples, como o respeito, a gentileza e a educação, que andam meio esquecidas nos tempos modernos. E antes que alguém me acuse de ser preconceituoso, deixo bem claro o seguinte: tudo o que não quero dizer é que pobre é que não tem educação. Pelo contrário, o que noto é que, na maioria dos casos, à proporção que cresce a riqueza material do indivíduo, aumenta seu grau de egoísmo, diminuem as noções de civilidade e de compromisso como cidadão que, além de direitos, tem deveres. E esses deveres vão muito além de simplesmente pagar impostos ou as parcelas de financiamento do seu lindo automóvel.